12
de
março
Prova de fogo
Calouros sofrem queimaduras em trote
O contato de uma substância química corrosiva com a pele pode causar: alternativa “A” – Queimaduras; alternativa “B” – Dores de cabeça; ou alternativa “C” - Queimaduras e muita dor de cabeça. A questão não é de vestibular, mas foi por esta prova de fogo que os calouros do Curso de Engenharia Mecânica da Unoesc passaram na manhã da última terça-feira (9) durante o ritual de boas-vindas oferecido pelos colegas veteranos. O resultado do trote, a exemplo de outros tantos reportados pela imprensa brasileira somente neste ano, foi queimaduras de 1º grau na pele, pelo menos três jovens encaminhados ao hospital, boletim de ocorrência registrado e a abertura de sindicância na Universidade para apurar o caso e punir os culpados.
Desde que as aulas começaram, há mais de um mês, os calouros de Engenharia Mecânica esperavam com certa expectativa o trote. A julgar pelo número de participantes, cerca de 40 dos 50 matriculados na primeira fase, a maioria dos novatos encarava o ritual, proibido dentro das dependências da Universidade, como uma forma divertida de integração com os veteranos. A data do trote era conhecida e muitos haviam, inclusive, levado roupas velhas a fim de descartá-las ao final da “sujeira”. O que eles não esperavam era que entre farinha e ovos estivesse um produto químico que provocaria queimaduras na pele.
A reportagem conversou com exclusividade com uma das vítimas, um jovem de 17 anos que reside com a família em Joaçaba. Com manchas avermelhadas por toda a extensão do braço direito, ele relata que a “brincadeira” começou dentro da sala de aula, no Campus II da Unoesc, quando os veteranos pediram para o professor a palavra e chamaram os “bixos” para o trote. “Eles não fizeram nenhum tipo de ameaça, não obrigaram ninguém a participar e disseram que não seria nada violento ou agressivo”, afirma o estudante que pediu para não ter o nome divulgado por temer represálias. Liberados, os alunos da 1º fase seguiram para o vestiário onde trocaram de roupa.
Eram 9h30. Na rua que dá acesso ao campus, a parte “suja” do trote já havia começado. Antes, os veteranos retiraram de um dos pés de cada calouro o calçado, que seria devolvido limpo sob pagamento de R$ 20 (sujo era R$ 10). Os trotes, aliás, costumam ser verdadeiros festivais de recolhimento de dinheiro. Neste, segundo o entrevistado, a participação custaria R$ 20 e para não ter o cabelo raspado cada novato teria que desembolsar R$ 30. Dado o desfecho, nem todos pagaram a quantia que seria aplicada na organização de uma festa.
“Tudo começou engraçado, aquela coisa de um trote comum com muita sujeira. Eu só achei estanho a presença de um veterano com máscara e luvas passando com pano um líquido nos calouros. Quando chegou minha vez, ele perguntou se eu não queria tirar a camisa. Eu disse que não e ele passou aquilo no meu braço. O cheiro era um pouco forte, mas não era ruim. Como eu não conhecia a substância deduzi pela textura que seria algo para grudar a farinha que eles estavam nos jogando. Na hora não senti nada”, lembra o estudante.
Mas bastaram cinco minutos para que a reação do produto (possivelmente uma mistura corrosiva a base de creolina), intensificada pelo sol, causasse uma ardência na pele. Logo as reclamações começaram a pipocar. “Mas os veteranos continuaram rindo e passando aquilo. Depois de muita reclamação resolveram jogar água no braço de alguns calouros, a maioria meninas”, conta a vítima ao enfatizar que a única preocupação dos agressores era com a região do rosto, a qual era limpa sempre que solicitado (atitude que rendeu um comentário positivo do entrevistado: “Na hora até achei legal, mas foi até eu começar a sentir meu braço arder”).
Ele indica ainda que a maioria dos colegas de turma que participou do trote sofreu queimaduras, uns com mais e outros com menos gravidade. As marcas foram vistas no dia seguinte a “brincadeira”, quando retornou à aula. Pelo menos três rapazes procuraram o Hospital Universitário Santa Terezinha (HUST) em decorrência do trote na manhã de terça-feira. Todos foram medicados e liberados.
Perguntado se a clima entre calouros e veteranos havia ficado nebuloso no pós-trote, o estudante respondeu: “Na quarta-feira a situação era um pouco desconfortável. Os veteranos demonstravam estar preocupados diante da gravidade e da repercussão que teve o trote. Alguns se colocaram a disposição para pagar despesas médicas se fosse necessárias, numa tentativa de abafar o caso. Mas o que posso dizer é que apesar de ter começado com o braço queimado, também comecei com o pé direito. Já realizamos nossa primeira prova e eu fui muito bem. Estou um pouco triste e também preocupado se o ferimento deixará marcas. Mas acredito que as coisas voltarão ao normal em breve”.

Unoesc promete punir os responsáveis
Assim que tomou conhecimento do ocorrido, a reitoria da Unoesc se pronunciou por meio de sua assessoria de imprensa. Em nota, reiterou a informação já conhecida pela comunidade acadêmica de que trotes – exceto os educativos ou solidários - são proibidos nas dependências da Universidade. O texto diz ainda que os veteranos desrespeitaram as normas da instituição e por isso estarão sujeitos a punições.
De acordo com o diretor de graduação da Unoesc, Ricardo Menezes, uma sindicância será aberta para apurar o caso e identificar os responsáveis. Menezes afirmou ainda que um relatório foi solicitado pela vice-reitoria ao HUST e a coordenação do curso de Engenharia Mecânica sobre o que realmente aconteceu. A sindicância deve durar pelo menos 30 dias, e até a sua conclusão a Unoesc manterá as informações em sigilo. A depender do que for constato, os responsabilizados poderão receber advertência, suspensão de até 30 dias ou, até mesmo, expulsão.
Os veteranos envolvidos poderão ainda responder criminalmente. Segundo o delegado da Polícia Civil, Maurício Pretto, um boletim de ocorrência foi registrado por um dos calouros. O estudante que apresentava queimaduras nos braços e tórax foi encaminhado para o Instituto Médico Legal (IML). Resguardada a prova da violência, ele terá seis meses para abrir uma representação contra os agressores.
Punição é o que espera a família do estudante ouvido pela reportagem. “Eu espero que a Universidade consiga identificar e punir os culpados para que esse fato lamentável não volte a se repetir. O trote é uma brincadeira e tinha tudo para ser uma comemoração, mas acabou sendo uma grande dor de cabeça”, remedia a mãe do calouro que sugere o trote solidário, cidadão, cultural, social ou ecológico. O que não falta é criatividade para guardar uma boa marca da entrada na universidade, desde que não seja na pele.

