H !ndispensável

Você nunca se perguntou por que nós (lusofônicos) usamos a letra H se ela não representa nenhum som? Eu já, talvez porque tenho certa relação com ela. Bem, o H realmente não tem nenhum valor fonético, mas ao longo do tempo, nas várias revisões ortográfica do português, a consoante não foi totalmente descartada. A etimologia e a tradição da escrita explicam o porquê. Eu sou da mesma opinião da minha mãe, que escolheu meu nome e, por conseguinte, dos meus dois irmãos. “O H empresta o seu enlevo as palavras”. Não é legítimo desejar então a presença do H onde a falta de algo se faz presente?

15

de
agosto

O deadline

CRÔNICA

“É hoje”. A frase taxativa do professor indicando o prazo de entrega do exercício no primeiro dia de aula, depois de um longo período de férias, serviu como um estalo. Manifestou-se subitamente a ausência de imaginação.

O caderno está aberto e a folha em branco, como o estoque de idéias do jovem estudante. Palavras elásticas permeiam a mente esvaecida. A caneta, enfim, começa a escrever contagiada pelo primeiro sopro de imaginação. Indubitavelmente a folha é destacada, amassada e posta sobre a mesa. Aliás, o barulho de papel deixando o aspiral dos cadernos universitários é o que mais se ouve na sala quase silenciosa.

“Como é difícil escrever um texto”, indigna-se. A julgar pela capacidade do escritor numa noite chuvosa de segunda-feira pós-carnaval e pelo tempo médio que ele costuma ter para produzir (quase o dobro do disponível naquele momento fatídico), é ainda mais difícil. Multiplique então esse grau de dificuldade pelos dias em que o hábito jornalístico de dedilhar teclados deixou de ser praticado. Desespero total. “Vale nota! Preciso de uma luz”.

Nada parecia mais obscuro que a mente do estudante. A colega do lado levanta e despede-se. O tempo passa e o prazo limite que não pode ser ultrapassado se aproxima. Mas nem tudo está perdido. Existe algo de interessante habitando a memória do escritor em crise. Um diálogo de MSN, que renderia uma boa crônica, salvaria o dia. Mas a conversa não poderia ser relatada na íntegra. Uma queda de energia interrompera o bate-papo.

As inúmeras ausências em um só dia não é apenas lamento. Redenção. “Aí está o tema da minha crônica. Escreverei sobre o vazio, o inexistente, as ausências, sobre como – em situaçãos mais inesperadas – a falta de algo (imaginação, coerência textual, vontade) se faz presente”.

O cronista tinha razão. A sua ideia era realmente satisfatória e renderia um bom texto. Isso se o tempo não tivesse se esgotado e a tinta da única caneta que possuía não tivesse seguido o exemplo da ampulheta.

18

de
julho

JAC é goleado pela Chapecoense

Derrota por 5 a 0 não era o que esperava o torcedor na primeiro jogo da temporada.

Na estreia do JAC na temporada, quem deu show foi a Chapecoense

Na estreia do JAC na temporada, quem deu show foi a Chapecoense

O primeiro jogo do Joaçaba Atlético Clube em 2010 estava planejado para ser uma grande festa. No entanto, o torcedor do Leão do Vale não teve motivos para comemorar neste domingo (18), véspera do Dia Nacional do Futebol. Quem foi ao Estádio Oscar Rodrigues Da Nova prestigiar o amistoso contra a Chapecoense (estima-se que cerca de 1 000 pessoas), viu um time com rendimento bem abaixo das expectativas levar cinco gols e não fazer nenhum.

O JAC entrou em campo com Júlio (1), Juninho (2), André (3), Índio (4), Lalana (5), Igor (6), Lê (7), Alexandre (8), Linha (9), Fattori (10) e Rogério (11). A escalação, com a entrada de Lalana na zaga e de Alexandre no meio-campo, foi um pouco diferente da que iniciou os coletivos realizados durante a última semana, mas tudo dentro do desenho tático elaborado pelo técnico Osmar Magalhães. Surpresa, no entanto, foi a braçadeira de capitão sendo usado pelo lateral Igor.

O Joaçaba começou tocando bem a bola e chegou primeiro a meta guarnecida pelo goleiro Juliano da Chapecoense, porém sem perigo. A preocupação do JAC era neutralizar o contra-ataque adversário. Entradas fortes e faltas excessivas não foram suficientes. O time do Oeste, que há meses se prepara para disputar a Série C do Brasileiro, não se intimidou, foi para o ataque e na primeira chance, aos 8 minutos, abriu o placar. Eduardo Erê (2) aproveitou o vacilo da defesa depois de jogada com bola parada na entrada da área para fazer 1 a 0.

JAC cria, mas só Chapecoense marca

O gol sofrido não pareceu desmotivar os jogadores, tampouco a torcida do Leão do Vale que compareceu apesar da baixa temperatura e da garoa esporádica. O entusiasmo vindo das arquibancadas contagiou o ataque do JAC. No entanto, as boas oportunidades de gols criadas aos 13 minutos, com Fattori, e logo na sequência, com Rogério, foram barradas pela eficiente defesa adversária.

Tentando chegar ao empate, o JAC se expôs e aos 27 minutos, sofreu o segundo gol. No contra-ataque, Teves (11) marcou para a Chapecoense aproveitando a espalmada-presente do camisa 1 do JAC, que possibilitou o rebote de peixinho do atacante. A partir deste momento, o jogo já se decidia a favor dos visitantes. A expulsão do zagueiro André, punido com o segundo amarelo por entrada violenta, só fez facilitar o destino do jogo.

O terceiro gol da Chapecoense veio mais uma vez no contra-ataque. Aos 40 minutos, Marcos Vinícius (8) chutou de longe e o goleiro Júlio aceitou. A melhor oportunidade do Joaçaba no primeiro tempo foi um chute de Fattori, a média distância, faltando menos de 2 minutos para o termino da etapa, mas a bola escapou a esquerda da meta.

Segundo tempo

No retorno, Recova e Marcelo substituíram Alexandre e Rogério respectivamente. As mudanças feitas por Magalhães – prometidas durante o intervalo, ele não queria mais levar gols - não tiveram o efeito esperado. Ainda com problemas de posicionamento, até os 11 minutos da segunda etapa só o quarto gol do time de Chapecó aconteceu. Desta vez a bola seguiu cheia de veneno rumo a meta e ainda picou na frente de Júlio, indefensável. Mas o arqueiro depois da jogada foi substituído e deu lugar ao reserva Bruno.

Quem também teve a oportunidade de jogar foi Anderson na posição de Índio, que saiu machucado. Logo depois, Adão se apresentou no lugar de Fattori, que fez uma partida satisfatória no que diz respeito a tentativas. Uma delas, momentos antes. Aos 17 minutos ele conseguiu dar uma bicicleta, que antes de ineficaz foi elogiada com aplausos da torcida.

Se o que poderia ser feito pelo do JAC no amistoso era apenas testar jogadores, por outro lado a Chapecoense encontrou espaço para mais um gol, o quinto, marcado aos 21 minutos.

A partir daí até o apito final, nada mais aconteceu dentro de campo. Vale registrar, no entanto, o senso de humor da Fúria do Leão. Logo após chamar o time do JAC de “sem vergonha”, a torcida bradou ironicamente: “Vamos virar Jaquêê, Vamos virar Jaquêê!!”. A temporada promete.

Pontos Positivos

De acordo com o Osmar Magalhães, o ponto positivo do amistoso foi o embate contra uma equipe de qualidade. “A Chapecoense mostrou todos os nossos defeitos. Temos cerca de duas semanas para corrigi-los e começar bem o campeonato (Divisão Especial) contra o Hercílio Luz, outra equipe qualificada”, disse o técnico do Joaçaba logo após a partida.

Pontos Negativos

Os pontos negativos são cinco, cada um dos gols sofridos. Magalhães não escondeu a frustração com o placar. “Seria incoerente dizer que levar cinco em casa não é ruim. Eu esperava uma partida mais equilibrada”, disse ele ao justificar a goleada. Enfatizando ainda a grandeza (?) do adversário e pelo curto período de treinamentos (cerca de 20 dias), que resultou em muitos erros de posicionamento.

Video

Magalhães e falam sobre a derrota

Ficha técnica: Joaçaba 0 x 5 Chapecoense

Local: Oscar Rodrigues da Nova, em Joaçaba (SC).
Data: 18/07/2010 (domingo).
Horário: 15h30 (de Brasília)
Arbitragem: Ângelo Rudimar Bechi, auxiliado por Clair Dapper e Edilaine Souza.

Cartões amarelos: Igor, André Luiz e Anderson Mimo (Joaçaba); Wilsinho, Pereira, Eduardo Erê, Gustavo e Emerson Cris (Chapecoense).

Cartão vermelho: André Luiz (Joaçaba).
Gols: Eduardo Erê, aos 9 do 1º tempo, Teves, aos 28 do 1º tempo, Marcos Vinicius, aos 41 do 1º tempo; Diogo, aos 10 do 2º tempo e aos 22 do 2º tempo (Chapecoense).

Joaçaba
Júlio (Bruno); Índio (Anderson Mimo), André Luiz e Lalana; Juninho (Saulo), Lê, Alexandre (Recova), Linha (Jean) e Igor; Marcelo Fattori (Adãozinho) e Rogério (Marcelo).
Técnico: Osmar Magalhães.

Chapecoense
Juliano (Marcelo); Eduardo Erê (Wilsinho), Pereira (Fabiano), Groli e Gustavo (Diego); Emerson Cris, Jan, Marcos Vinicius e Xaro (Volnei); Diogo (Fernando) e Teves (Daniel).
Técnico: Guilherme Macuglia.

15

de
julho

Supermercado de Joaçaba adota reciclagem pré-consumo

Serviço sugere o descarte de embalagens de papel ou plástico ainda dentro da loja

Urna para depósito dos recicláveis recebe, em média, 500 embalagens por dia.

Urna para depósito dos recicláveis recebe, em média, 500 embalagens por dia.

Desde a última semana, os clientes do Colmeia Center, de Joaçaba, estão sendo convidados a aderir uma prática de consumo consciente. O supermercado implantou um projeto de reciclagem pré-consumo. Com a instalação de uma grande urna próxima aos caixas, o consumidor pode descartar embalagens de papel ou plástico que não pretende levar para casa, como por exemplo, a caixa que envolve o tubo do creme dental ou a embalagem externa de biscoitos e chocolates. Após o descarte seletivo, o supermercado envia todos esses resíduos para reciclagem.

Na região, o projeto é pioneiro e se revela como um instrumento de propagação dos conceitos de consumo consciente e da importância da reciclagem.  A verdade é que as embalagens constituem grande parte do lixo gerado no cotidiano doméstico, mas na reciclagem pré-consumo os materiais que podem ter esse destino nem saem da loja. Essa atitude diminui significativamente o volume dos resíduos gerados dentro de casa. O mais importante, porém, é a conscientização das pessoas para o destino apropriado  desses materiais, sobretudo em municípios como Joaçaba, que não possuem coleta seletiva.

Nesse sentido, a maioria dos clientes – mesmo os mais apressados – tem permitido que o empacotador faça o descarte. Quem fez sua parte foi a estudante Amanda Baratieri, 20 anos, que não realiza a coleta seletiva em casa, e vê na reciclagem pré-consumo a oportunidade de ajudar o planeta. “A atitude do supermercado chama a atenção para uma questão urgente. Não temos a noção de quanto lixo produzimos por dia e que boa parte dele pode ser reciclado“, confessa.

Já na primeira semana de reciclagem pré-consumo, o serviço já contabiliza uma média diária de 500 embalagens arrecadadas, entre papel e plástico. Cartazes foram espalhados por todos os caixas e os funcionários foram treinados para sugerir a retirada das embalagens. Caso o consumidor concorde, o empacotador retira as embalagens extras e deposita na caixa de reciclagem.

Menos sacolas plásticas

De acordo com o proprietário do supermercado, Luiz Sérgio Belló, a ação é de execução simples e antecipa outra atitude sustentável que precisará de uma maior disposição dos consumidores. Em breve, as sacolas plásticas que são distribuídas gratuitamente, mas de alto custo ambiental, serão substituídas pelas sacolas retornáveis. “Estamos desenvolvendo um projeto juntamente com a prefeitura e outras entidades para que a substituição dos sacos plásticos por retornáveis seja prontamente incorporada ao dia a dia do consumidor em Joaçaba”, afirma Belló.

Reciclagem pré-consumo é destaque na imprensa de SC

Assista a reportagem da RBS TV sobre o tema

25

de
maio

Conversas ao volante

PERFIL

“Suas viagens eram intermináveis de cansaço, de poeira e chão”. A letra da canção que toca no CD player da carreta é mais que um momento lacônico na vida de Aristeu A. de Farias, 50 anos. Na cabine, sentado em seu assento com as mãos no volante, ele parece concentrado na estrada, mas está preocupado com o prazo para entregar os 30.000 kg de cimento a granel que carrega. Pela frente estão 200 km e lhe restam apenas 3 horas. A 60 Km/h só a vegetação que ladeia a BR-282, iluminada pelo sol da tarde, parece ficar para trás num rastro – nem tão – célere.

O interior da cabine revela muito sobre a vida do motorista.  A paixão pelo radioamadorismo é percebida pelo aparelho colocado acima de sua cabeça. O brasão do Internacional Sport Club adesivado no pára-brisa em conjunto com a cuia de chimarrão e a garrafa térmica, que descansam ao lado a alavanca de marchas, tornam a pergunta a respeito da naturalidade dispensável. Ainda dentro da cabine, havia sobre um banco retrátil que lhe servia de cama, um travesseiro e cobertas.  A caixa de metal com espaço interior de 2×1,5 metros é a casa deste nômade por profissão há 32 anos.

Motoristas desde os 18 anos, Aristeu  já percorreu todo o território nacional, conhece cada quilometro das principais rodovias do país. Após todas as viagens que fez é impossível contabilizar quantos quilômetros já rodou. Modesto, ele acredita que “foram alguns milhares”. Atualmente, Azinha, como é conhecido no trecho e pelos colegas radioamadores, é funcionário de uma empresa de concreto usinado de Chapecó. As viagens agora são próximas, as mais distantes ficam, em média, a 500 Km da sede da empresa e da sua outra residência, onde moram a mulher, Alair, e o filho mais novo de três, Herick, 14 anos.

Era começo da tarde. A viagem já durava 4 horas, contadas a partir da saída do local onde havia carregado, quando o caminhoneiro parou num posto de combustíveis onde era cliente. O frentista o conhecia pelo apelido. “Sempre paro aqui quando faço essa rota”, disse o caminhoneiro indo em direção ao que parecia ser um restaurante. Numa placa à entrada do estabelecimento lia-se: “Espeto corrido - R$ 12,90”. Essa seria a refeição do dia. Já a mesa, e atrás de um prato bem feito, Asinha lembrou, nostálgico, da época que cozinhava no fogareiro da sua “caixa de comida”.

“Costumava fazer algo rápido, já que não tinha muito tempo. Mas a comida era muito melhor do que a de alguns restaurantes de beira de estrada”, confessou. Ao garçom já havia sido feito o pedido da bebida, um refrigerante. “Em outros tempos”, disse se referindo a época antes da “Lei Seca”, “teria pedido um Martelinho (dose de água ardente) como aperitivo”. Após o almoço, Asinha refez o chimarrão, encheu a garrafa térmica e despedindo-se do frentista partiu para mais algumas horas de viagem.

As dificuldades

A saudade da família, o risco de assaltos e acidentes, a alimentação, chuva, a quebra do caminhão… essas são apenas algumas das dificuldades que os profissionais do volante enfrentam durante o exercício da profissão. Durante os anos na estrada, Aristeu já passou por tudo isso, muitas vezes. Mas, segundo o motorista, duas dificuldades estarão sempre de carona, independente do destino do frete: a pesada carga horária de trabalho imposta aos caminhoneiros e o péssimo estado de conservação das rodovias brasileiras.

Aristeu conta que há colegas que passam 17 a 18 horas dirigindo ininterruptamente para cumprir o horário estabelecido pela empresa ou pelo embarcador da carga. Nesse caso, acabam recorrendo a remédios à base de anfetaminas para se manterem acordados, comprometendo a própria saúde e a segurança nas estradas. Para ele, a pressão de ter horários apertados para cumprir, desgasta o caminhoneiro, física e psicologicamente. “Em alguns casos não tem outro jeito. Se o caminhoneiro é empregado, o patrão é quem manda, e se o cara é o dono do caminhão, precisa fazer muitos fretes só para pagar o diesel”. Em seguida, Aristeu disse que essa situação precisa acabar, mas enfatiza que enquanto os caminhoneiros “continuarem esquecidos pelos governantes, não haverá solução. Afinal, os caminhoneiros também têm contas para pagar”.

A situação das rodovias é um capítulo à parte. Quase todas são pistas simples, sem acostamentos e esburacadas. Para Aristeu, as estradas brasileiras não acompanharam o aumento do fluxo de caminhões. “Quase tudo o que é transportado dentro do país passa pelas rodovias. Mas, elas continuam como eram quando eu comecei a viajar”, explicou. Com pesar, comentou ainda, que embora a vida dentro de um caminhão esteja mais confortável, uma vez que os caminhões saem das fábricas cada vez mais equipados, o motorista continuará sentindo a desconfortável trepidação de uma estrada cheia de buracos, mesmo com o modelo mais moderno.

Ao fim de mais uma viagem, Aristeu Farias, o caminhoneiro Asinha, analisa sua escolha profissional, puxando pela memória os bons momentos dos 32 anos de estrada. “Ficam as amizades, todos os lugares bonitos que conheci. Se, por acaso, tivesse escolhido outra profissão não teria visto muita coisa interessante. E apesar de correr tantos riscos, eu nunca sofri um acidente. Consegui dar uma vida confortável para minha família. Ajudo um filho que faz faculdade, tenho uma casa, um carro, e levo uma vida satisfatória, ainda trabalhando como caminhoneiro. É cansativo, mas gratificante”.

Se não fosse pelas rugas e expressão do rosto, que denunciam tão enfaticamente seu cansaço, a saudade da família seria o argumento mais lógico para que Aristeu decidisse fazer sua última viagem. Mas a paixão pela estrada deve continuar a movimentar o odômetro de sua carreta.

12

de
abril

Perfil

Kallinca Porto idolatra Madonna, lê Bukowiski, beija – mesmo – garotas e é a popstar de párias e renegados

Entre uma tragada e outra de cerveja Glacial, dessa que se vende em boteco universitário e da qual os estudantes escolhem pelo preço (R$ 3, experimente! é ótima), Kallinca Porto é a fama personificada. Afinal, no ambiente de penumbra, poluído por fumaça de cigarro e rock n’roll decadente, a universitária de 19 anos concede entrevista a um jovem jornalista interessado na sua vida. O tema clichê – Quem não conhece Kallinca Porto nesta parte ao sul do mundo? – nada tem a ver com a história relatada. O lugar-comum está distante de ser habitado por essa garota deslumbrante de um jeito absolutamente excessivo.

Quando Truman Capote escreveu a novela Breakfast at Tiffany’s, em 1958, pensou que sua amiga Marilyn Monroe seria a tradução perfeita da personagem Holly Golightly. A garota cabeça de vento, que ingenuamente flanava pela vida e possuía uma inocência ainda que voluptuosa - capaz de tornar a amoralidade antes de reprovável, charmosa – é também a descrição da nossa bonequinha luxo. Aliás, as peripécias de Kallinca poderiam render-lhe o título - pouco nobre - de celebridade por qualquer colunista nova-iorquino, a capa da Vogue, Life, Rolling Stones. Kallinca seria facilmente personagem dos filmes underground de Polanski, do mundo pop de Warhol ou Madonna, a quem cultua obstinadamente. Com 1,70 metros de altura, cabelos negros ondulados até o ombro, que contrastam com a pele branca aveludada e olhos por onde navegariam saveiros, Kallinca é ou não decalque da celebridade talhada por Capote?

Kallinca cresceu em uma vida confortável, na região quente e de ar abafado do centro-oeste do país. Durante a infância morou com a mãe Lucimar, os avós maternos e a tia em uma casa grande de quintal espaçoso, em meio à sombra de muitas árvores (ela odeia o calor). “Tinha vários pés de frutas, tinha uma mangueira, um pé de fruta do conde, um pé de limão, pé de acerola, de pitanga e de caju, maracujazeiro, tinha uma horta, tomate, alface, hortelão, fora as ervas do , arruda, cidreira… entrava muito sol dentro de casa. O cheiro era sempre de algo da cozinha: café, temperos. Tinha o cheiro da minha ”, recorda. Aos 12 anos mudou-se com a família para o interior de Santa Catarina (o calor só seria problema poucos meses por ano), onde atualmente traça - nem tão ávida assim - sua carreira de fama e o estrelato (afirma que a faculdade de Publicidade, que cursa há dois anos como hobbie, pode ajudá-la).

A educação de Kallinca é algo cinematográfico. Sua mãe, corretora de seguros e aficionada por música, a educou com discos de Bob Dylan, Duran Duran e, claro, Madonna. Não por acaso ela idolatra a diva do pop. As referências culturais, que de certa forma moldaram a sua personalidade e injetaram ainda mais conteúdo na sua veia artística, têm ainda Supertramp, A-HA e na literatura Bukowiski, o escritor marginal e anarquista do qual o texto, além de escatológico e etílico, fala de pessoas comuns e que não tem futuro.

Da infância regada à música, livros e filmes de “adultos”, Kallinca lembra do dia em que, aos cinco anos, assistiu “Lua de Fel” (Roman Polanski, 1992), entre os mais amargos filmes sobre o amor, as obsessões e a sexualidade humana. “Estávamos no sofá, eu deitada no colo dela. Nas cenas de sexo, que são muitas no filme, ela tentava cobrir meus olhos com a mão”, diz revivendo o modo como sua mãe tentava sem êxito censurar sua visão. Na reprodução, o riso, a mão no rosto, o vazio entre os dedos que revelavam seus olhos, denunciavam a suavidade do flashback lacônico.

A televisão era uma companhia inseparável. Quando a mãe saia para trabalhar a deixava na frente do aparelho. Durante as oito horas que a genitora passava fora de casa (e avós ocupados com seus afazeres), as únicas companhias de carne e osso eram de sua tia (com esquizofrenia) e Pimpolho, seu coelhinho de estimação. Brincadeiras na rua, com amiguinhos até os 12 anos eram incomuns. Depois disso, só nos finais de semana. Talvez – e só talvez – por isso ela se considere uma jovem viciada em TV. Com a chegada da internet migrou também de vício. Ela não imagina como seria sua vida hoje sem TV e sem consultas diárias no Google.

Desde o tempo do colégio adventista ela se destaca. Não pelos óculos que usava ou pela tiara colorida que a avó insistia em colocar na sua cabeça, como se ali fosse o local ideal para fixar um outdoor anunciando: Olhem para a Kallinca, a menina malvada que ninguém gosta e, que segundo a professora vai para o inferno. “O adventista era particular. Tinha meninas que usavam saia, mas eu usava short… a primeira palavra que eu escrevi foi Jesus, antes do meu nome, acredita? Eles contavam historinhas das Bíblia (isso no pré), e qualquer ato de egoísmo ou malvadeza, a professora dizia que iríamos para o inferno. A professora chamou minha mãe uma vez e disse que eu era muito faladeira. Minha mãe disse que iria começar a me vigiar na escola, eu acreditei e ficava olhando pra todos os lugares para ver se a encontrava”, diverte-se sem nenhum saudosismo.

Dessa época em que invejava a coleguinha Ingrid – loira, quietinha, pé-pequeno, sem pelos e diabética que todos gostavam – e que ouvia relatos de pecados e penitências ela quer mesmo uma redenção. “Era horrível. Sou cheia de culpa até hoje. Quando faço sexo fico pensando: Meu Deus! Sou uma puta. ‘Dei’ pro cara na primeira vez”.

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Diante do panorama comportado e conservador da sociedade bairrista e de pós-adolescentes de vinte e poucos anos cheios de preconceitos, Kallinca – que agradece por ter Madonna como inspiração – é uma popstar para os párias e renegados sociais que a conhecem. “Eu acho um carma na minha vida ser fã de Madonna. Isso porque não se espera pouco de quem é fã de Madonna”, revela num timing quase teatral. Com a mesma expressão afirma que se descobriu narcisista. Antes de qualquer coisa, há apenas Kall e seu reflexo. “Vivo me olhando no espelho mexendo no cabelo”.

O que ela diz não parece nítido e claro, porém flui de forma avassaladora como pequenos goles de Tequila, limão e sal. A mistura pouco discreta é ainda mais explosiva quando desce pela linda garganta de Kallinca e cai no seu sangue. Imagine a rotina de um bar ser interrompida por uma mulher que não hesita em tirar a roupa em troca de um hit da sua diva? Imagine agora o doce pedido “Se tocar Madonna eu fico pelada” tornar-se jargão. Kallinca é Kallinca o tempo todo. Nua num bar ou vestida com uma de suas produções autênticas - a combinação de um corselet de renda branca e minissaia armada da mesma cor, sapatos de salto agulha altíssimo vermelhos, colares de cristais, lábios e unhas pintados de fogo é uma delas - para um ambiente mais “formal”.

Essa vida - música, moda, excessos, volúpia e o desejo de ser notada - é tudo o que ela sempre quis. Mas não é só isso. Entre a organização do quarto, do horário para comer, idas e corridas (também ao banheiro), faculdade, fumar, beber cerveja, dar entrevistas, beijar garotos e garotas, transar, e vomitar no travesseiro do seu “ficante”… entre as “coisas cotidianas” da sua existência, ela tem a capacidade de produzir a requintada inquietação em relação à condição humana, tão “over”.

Se tudo seguir exatamente do jeito que não foi planejado, Kall não terá muito tempo para relaxar no seu futuro próximo de fama e ostentação - uma ambição que soa muito melhor se não for declarada em voz alta. Mas, mais importante que isso, ela quer inspirar sua legião de fãs bradando por aí. “É difícil demais e, quando você é inteligente, é muito constrangedor. Meus complexos não são tão inferiores assim: todo mundo acha que ser estrela é ter um ego do mesmo tamanho de um bonde são coisas que andam de mãos dadas; na verdade, o essencial é não ter ego nenhum. Nada contra ser rica e famosa. Isso está nos meus planos, e qualquer dia desses vai dar certo; mas quando isso acontecer, quero estar com o meu ego aqui comigo. Ainda quero ser eu mesma quando acordar numa bela manhã para tomar café-da-manhã na Tiffany’s”, gritaria Kallinca se fosse Holly Golightly, a bonequinha de luxo de Capote. Mas como não é, ela se contenta com a definição que o avô lhe atribuí com toda sinceridade: “Kallinca é uma santinha”*.

*No italiano, o nome de Santa Virgem Maria é vertido, para representação artística, em Madonna.

12

de
março

Prova de fogo

Calouros sofrem queimaduras em trote

O contato de uma substância química corrosiva com a pele pode causar: alternativa “A” – Queimaduras; alternativa “B” – Dores de cabeça; ou alternativa “C” - Queimaduras e muita dor de cabeça. A questão não é de vestibular, mas foi por esta prova de fogo que os calouros do Curso de Engenharia Mecânica da Unoesc passaram na manhã da última terça-feira (9) durante o ritual de boas-vindas oferecido pelos colegas veteranos. O resultado do trote, a exemplo de outros tantos reportados pela imprensa brasileira somente neste ano, foi queimaduras de 1º grau na pele, pelo menos três jovens encaminhados ao hospital, boletim de ocorrência registrado e a abertura de sindicância na Universidade para apurar o caso e punir os culpados.

Desde que as aulas começaram, há mais de um mês, os calouros de Engenharia Mecânica esperavam com certa expectativa o trote. A julgar pelo número de participantes, cerca de 40 dos 50 matriculados na primeira fase, a maioria dos novatos encarava o ritual, proibido dentro das dependências da Universidade, como uma forma divertida de integração com os veteranos. A data do trote era conhecida e muitos haviam, inclusive, levado roupas velhas a fim de descartá-las ao final da “sujeira”. O que eles não esperavam era que entre farinha e ovos estivesse um produto químico que provocaria queimaduras na pele.

A reportagem conversou com exclusividade com uma das vítimas, um jovem de 17 anos que reside com a família em Joaçaba. Com manchas avermelhadas por toda a extensão do braço direito, ele relata que a “brincadeira” começou dentro da sala de aula, no Campus II da Unoesc, quando os veteranos pediram para o professor a palavra e chamaram os “bixos” para o trote. “Eles não fizeram nenhum tipo de ameaça, não obrigaram ninguém a participar e disseram que não seria nada violento ou agressivo”, afirma o estudante que pediu para não ter o nome divulgado por temer represálias. Liberados, os alunos da 1º fase seguiram para o vestiário onde trocaram de roupa.

Eram 9h30. Na rua que dá acesso ao campus, a parte “suja” do trote já havia começado. Antes, os veteranos retiraram de um dos pés de cada calouro o calçado, que seria devolvido limpo sob pagamento de R$ 20 (sujo era R$ 10). Os trotes, aliás, costumam ser verdadeiros festivais de recolhimento de dinheiro. Neste, segundo o entrevistado, a participação custaria R$ 20 e para não ter o cabelo raspado cada novato teria que desembolsar R$ 30. Dado o desfecho, nem todos pagaram a quantia que seria aplicada na organização de uma festa.

“Tudo começou engraçado, aquela coisa de um trote comum com muita sujeira. Eu só achei estanho a presença de um veterano com máscara e luvas passando com pano um líquido nos calouros. Quando chegou minha vez, ele perguntou se eu não queria tirar a camisa. Eu disse que não e ele passou aquilo no meu braço. O cheiro era um pouco forte, mas não era ruim. Como eu não conhecia a substância deduzi pela textura que seria algo para grudar a farinha que eles estavam nos jogando. Na hora não senti nada”, lembra o estudante.

Mas bastaram cinco minutos para que a reação do produto (possivelmente uma mistura corrosiva a base de creolina), intensificada pelo sol, causasse uma ardência na pele. Logo as reclamações começaram a pipocar. “Mas os veteranos continuaram rindo e passando aquilo. Depois de muita reclamação resolveram jogar água no braço de alguns calouros, a maioria meninas”, conta a vítima ao enfatizar que a única preocupação dos agressores era com a região do rosto, a qual era limpa sempre que solicitado (atitude que rendeu um comentário positivo do entrevistado: “Na hora até achei legal, mas foi até eu começar a sentir meu braço arder”).

Ele indica ainda que a maioria dos colegas de turma que participou do trote sofreu queimaduras, uns com mais e outros com menos gravidade. As marcas foram vistas no dia seguinte a “brincadeira”, quando retornou à aula. Pelo menos três rapazes procuraram o Hospital Universitário Santa Terezinha (HUST) em decorrência do trote na manhã de terça-feira. Todos foram medicados e liberados.

Perguntado se a clima entre calouros e veteranos havia ficado nebuloso no pós-trote, o estudante respondeu: “Na quarta-feira a situação era um pouco desconfortável. Os veteranos demonstravam estar preocupados diante da gravidade e da repercussão que teve o trote. Alguns se colocaram a disposição para pagar despesas médicas se fosse necessárias, numa tentativa de abafar o caso. Mas o que posso dizer é que apesar de ter começado com o braço queimado, também comecei com o pé direito. Já realizamos nossa primeira prova e eu fui muito bem. Estou um pouco triste e também preocupado se o ferimento deixará marcas. Mas acredito que as coisas voltarão ao normal em breve”.


Unoesc promete punir os responsáveis

Assim que tomou conhecimento do ocorrido, a reitoria da Unoesc se pronunciou por meio de sua assessoria de imprensa. Em nota, reiterou a informação já conhecida pela comunidade acadêmica de que trotes – exceto os educativos ou solidários - são proibidos nas dependências da Universidade. O texto diz ainda que os veteranos desrespeitaram as normas da instituição e por isso estarão sujeitos a punições.

De acordo com o diretor de graduação da Unoesc, Ricardo Menezes, uma sindicância será aberta para apurar o caso e identificar os responsáveis. Menezes afirmou ainda que um relatório foi solicitado pela vice-reitoria ao HUST e a coordenação do curso de Engenharia Mecânica sobre o que realmente aconteceu. A sindicância deve durar pelo menos 30 dias, e até a sua conclusão a Unoesc manterá as informações em sigilo. A depender do que for constato, os responsabilizados poderão receber advertência, suspensão de até 30 dias ou, até mesmo, expulsão.

Os veteranos envolvidos poderão ainda responder criminalmente. Segundo o delegado da Polícia Civil, Maurício Pretto, um boletim de ocorrência foi registrado por um dos calouros. O estudante que apresentava queimaduras nos braços e tórax foi encaminhado para o Instituto Médico Legal (IML). Resguardada a prova da violência, ele terá seis meses para abrir uma representação contra os agressores.

Punição é o que espera a família do estudante ouvido pela reportagem. “Eu espero que a Universidade consiga identificar e punir os culpados para que esse fato lamentável não volte a se repetir. O trote é uma brincadeira e tinha tudo para ser uma comemoração, mas acabou sendo uma grande dor de cabeça”, remedia a mãe do calouro que sugere o trote solidário, cidadão, cultural, social ou ecológico. O que não falta é criatividade para guardar uma boa marca da entrada na universidade, desde que não seja na pele.

Veja o vídeo do Portal R7

23

de
outubro

Engano

CRÔNICA

Paulo tinha muitos amigos. Talvez, dentre suas qualidades, a que mais se destacava era o hábito de cultivar as amizades. Mantinha-se em contato constante com eles, na maioria das vezes, pelo telefone celular. Ninguém podia imaginar quantos contatos ele armazenara no chip do seu Motorola V3 e nem como vivera antes da invenção do aparelho. Só era sabido que grande parte dos números pertenciam a mulheres - amigas, ex-ficantes, ficantes, ex-namoradas, namorada -sim, porque se dizia fiel - e provavelmente futuras namoradas. Quando saia de casa, podia esquecer a carteira, os documentos, mas nunca, em hipótese alguma, o telefone celular. Os contatos seguiam a linha “Olá! Tás bem? Lembrei de ti…”. Naquela noite, Paulo usaria o celular muitas vezes. Não para marcar encontros amorosos - ele estava namorando - mas para reunir os amigos. Era noite de festa na cidade, um carnaval fora de época. Como animador da turma se sentia na obrigação de ligar para todos, marcar o ponto de encontro.

- Oi! Bento? Tás aonde guerreiro?
- Tô na baia!
- Tu não vens pra Folianópolis?
- Não, Paulo.
- Corre cara, tá bombando. Ouve o som!

Ainda era cedo, a atração principal não subira ao palco, mas a festa já havia começado.

- Manero… Mas não vou, não. Ontem teve confusão… E hoje é sexta-feira, não tem? Esquecesse que eu trabalho amanhã? Não tenho a vida ganha, não.

Dedos no teclado. Telefone chamando…

- Alô! Rodrigo… tu não vens cara?
- Claro! Tô a caminho. Não cheguei ainda porque tô preso no trânsito. Tá tudo parado na ponte.

O palco da micareta foi montado numa avenida de grande movimento, próxima ao centro da cidade. As alterações no trânsito nas saídas da ponte e nas vias próximas, sentido bairros-centro, provocaram engarrafamento nos acessos à ponte durante a noite.

Depois de ligar para mais alguns amigos e marcar o local de encontro, a fim de se localizarem no meio de milhares de foliões, Paulo lembrou que faltava falar com um velho companheiro de baladas.

- Ó Elton, Estamos te esperando aqui na… - Ele não teria tempo de concluir, fora bruscamente interrompido pelo amigo.
- Ó Nego, não vou nessa porra, não!
- Por que? Limitou-se a perguntar.
- . . .
- Elton, tu tás aí? Alô!
- Estou cara. Mas eu queria estar na frente do filho-da-puta que organizou essa merda nessa avenida. Onde já se viu, trancar uma avenida!!
- Calma, irmão. Daqui a pouco tu tá aqui com a galera, curtindo. Ó… tá muito massa!

Elton não concordava com o amigo. Estava dentro do seu carro, num engarrafamento. De cima da ponte conseguia ver toda a muvuca montada na avenida e a movimentação em torno do palco. Achava aquela festa um escárnio com ele e com os outros motoristas obrigados a respirar monóxido de carbono dentro das suas caixas de aço sem poder ir a parte alguma. As luzes emanadas pelos canhões coloridos da festa zombavam da feiúra urbana e da falta de planejamento, como uma fantasia de luxo zombando dos passistas pobres. Passara a odiar aquela maldita festa.

- Desculpa Nego, mas não vou estragar a noite de vocês. Vou voltar pra casa. Tchau.

Tu, tu, tu…

- Tá estressado - avaliou Paulo.

Passado uma hora ele conseguira concluir sua missão com sucesso. Os amigos estavam reunidos e comentavam a sua obsessão. Paulo estava novamente ao celular.

- É doença - diagnosticou Rodrigo. - Esse cara é viciado em celular.
- Ah… ele se acha! - disse Ana, carinhosamente.
- Nada, ele nos ama - completou a namorada Letícia.
- Eu concordo com o Rodrigo, é doença. – enfatizou Vanessa.
Letícia o interrompeu:
- Paulo larga esse celular! Tu és doido?
- Calma, amorzinho.
- Quem era?
- Não sei.
- Como não sabes?

Ele abriu um sorriso largo e explicou: fora um engano.

- E porque demoraste tanto?- perguntou Rodrigo.

- A mulher era simpática.
- Paulo!!! - Disse Letícia enciumada.
- Não é nada disso… Ela mora no centro também. Ouviu a música e perguntou se eu estava aqui, na Folianópolis, foi isso… - argumentou Paulo com o sorriso de sempre.
Ainda tomada pelo ciúme Letícia perguntou:
- Pediu o número do telefone dela também, querido?
Não precisara. O número ficara registrado no identificador de chamadas do celular.
Olhando para os lados, como se procurasse alguém, Letícia indagou:
- Ela está aqui?
-Não. - Respondeu Paulo, e apontando para a ponte encerrou a conversa - Ela está no trânsito!

22

de
abril

Do trash ao Cult? O cinema de José Mojica Marins

Capa preta, cartola, cruz invertida, escaravelho, longa barba e unhas que sobressaltam os dedos. Desde que surgiu, há mais de 40 anos, o personagem - que só poderia compor um filme de terror – continua o mesmo. Da indumentária peculiar aos trejeitos assustadores o coveiro mais famoso do cinema brasileiro (e talvez mundial!) transpõem a tela e salta para o imaginário das pessoas. Mesmo que não tenha visto se quer um filme dele, é improvável que, após essa descrição, a imagem de Zé do Caixão tenha lhe fugido da cabeça.

Pois bem, Zé do Caixão, interpretado por José Mojica Marins, também seu criador, retornou ao cinema no ano passado para encerrar – parte da critica diz que dignamente - a trilogia iniciada nos anos 60. Depois de “À meia-noite levarei sua alma” (1964) e “Esta noite encarnarei no teu cadáver” (1967), o mestre do pânico (Mojica ou Zé do Caixão?) assombra agora num filme com cor e melhores condições de produção. “A encarnação do demônio” (2008), orçado em 1,8 milhões – é tão nojento quanto os dois primeiros ao descrever a saga do coveiro psicótico em encontrar a mulher ideal para dar - neste caso - às “trevas” ao seu sucessor. Para isso, em meio a caixões, ossadas, baratas, aranhas e ratos (reais!) caminhando por corpos de mulheres e o sangue a jorrar, Zé, liberto da prisão após 40 anos, comete estupros, seqüestros e assassinatos.

O filme “A encarnação do demônio” será exibido no dia 23 de abril em Joaçaba, às 19h, no Auditório (Afonso Dresh) da Unoesc. Após a apresentação, o diretor do longametragem fará comentários e discutirá com os presentes (também sobre o filme). O evento é aberto para a comunidade e o ingresso é um quilo de alimento não-perecível (censura 18 anos).

Recentemente, o cineasta Mojica disse, em entrevista ao site G1, que a superprodução “Encarnação do demônio” não fica devendo em nada para - o também cult? - “Jogos Mortais” no que se refere a violência e sangue. Dessa forma, o novo - e último! - filme de Zé vem sendo comentado por todo canto, ganhou prêmios no Festival Paulínia de Cinema, em São Paulo, onde fez sua estréia, e esteve numa mostra paralela do Festival de Veneza.

De fato, o estilo caricato - e não trash? - de Mojica transformou Zé do Caixão em mito. Mas a obra do cineasta não se resume a horrorizar e amaldiçoar. Apesar de ter sido o primeiro a produzir filmes de horror no Brasil, com base na improvisação e enfrentando a falta de recursos técnicos, Mojica fez cerca de 30 filmes, alguns de aventura, comédias e até pornôs - 24h de sexo explícito, de 1985, é um exemplo.

No início da carreira, Mojica era considerado um primitivo um tanto excêntrico, ou no mínimo um marginal nos quadros do politizado cinema brasileiro da época, segundo o jornalista Felipe Lavignatti, de A Folha de São Paulo. Outro texto, esse do site “UOL Educação”, reitera a condição elevada da obra cinematográfica do cineasta ao afirmar que ela “merece destaque pelo que tem de circense e da tradição da cultura popular brasileira, tudo isso transposto - sem a menor cerimônia - para a linguagem cinematográfica”. (Antes de opinar sobre a obra de Mojica, verei, pelo menos, “A encarnação do demônio”, se conseguir ficar até o final da exibição).

O filme em cartaz

O filme em cartaz

26

de
março

Profissão: 5198

Tarde de sol, rodovia pouco movimentada, o asfalto irradia um calor abrasivo. Era numa das margens do quilômetro 383 da BR-282 (trecho entre os dois trevos de acessos à Joaçaba), que uma mulher esguia, aparentando ter entre 40 a 45 anos, desfilava sempre mexendo o cabelo. Vestia um corsário preto colado ao corpo, uma blusa lilás bem decotada e chinelo “Havaianas” da mesma cor. No ombro, uma pequena bolsa preta. Ela, uma profissional, cumpria uma das etapas da sua rotina de trabalho: oferecer o produto que vende e atrair ao menos um freguês. A profissão dessa mulher, segundo a Classificação Brasileira de Ocupações, sob o código 5198, é: prostituta.

Desde 2002, o ministério do Trabalho reconhece a prostituição como uma das 600 profissões brasileiras, na categoria de trabalhos informais. A partir da codificação, o site oficial da pasta (www.mtecbo.gov.br) mantém uma cartilha que dá orientações de saúde, atribuições e formação aos profissionais do sexo (o site oferece as mesmas informações a respeito das demais ocupações existentes no mercado de trabalho brasileiro). No documento, o capítulo “Batalhar Programa” oferece dicas de “seduzir com o olhar”, “oferecer especialidades” e “elogiar o cliente” e ainda, “fazer strip-tease”, “ajudar o cliente com carência afetiva” e “representar papéis”.

Recentemente, o ministério do Trabalho anunciou que vai atualizar a cartilha e, com isso, pode rever alguns termos e expressões. O tema foi abordado pelos meios de comunicação e as críticas, provenientes dos mais diversos setores da sociedade, reapareceram. Em nota, o ministério informou que o objetivo da CBO não é promover qualquer profissão e explicou que, sem a existência do código, os profissionais do sexo seriam incluídos em outras categorias, prejudicando as estatísticas oficiais e o desenvolvimento de políticas públicas específicas.

Para Fernanda*, natural do interior de São Paulo, de 19 anos, que há pouco mais de um ano também trabalha às margens da BR-282, mas numa casa noturna, as profissionais do sexo sempre foram estigmatizadas pela sociedade. “Essa discussão não vai chegar a lugar nenhum, preconceito sempre existiu e não vai acabar”, declara. No entanto, a jovem afirma que, apesar considerada indigna por uma expressiva parcela da sociedade de manter relações, não sexuais, mas de parentesco, amizade e afeto, viver na clandestinidade “não resolve nada, só piora as coisas”.

A opinião é compartilhada pela colega Tânia*, de 18 anos, que há mais de um trabalha na boate como garota de programa. “Não tem como viver escondida, alguém sempre vai reconhecer”, disse antes de revelar o motivo pelo qual escolheu a profissão. “Eu não estou aqui por sustento ou sonho, estou porque é divertido (risos). Trabalho porque gosto”. Tânia, a despeito da naturalidade com que fala da sua profissão, não revelou aos pais, que residem no Rio Grande do Sul, o que faz. “O dia que eles descobrirem não me deixarão mais por os pés em casa”, conclui.

Na época em que Tânia tinha 10 anos, Natasha* já se dedicava em satisfazer os desejos sexuais alheios. Hoje, com 33 anos, a paranaense mostra-se, além de insatisfeita com a vida que leva, entendida dos assuntos polêmicos que cercam a sua profissão. “A maior parte da sociedade brasileira rejeita a prostituição, mas consome. Eu não vou bater na porta de homem nenhum. Quem procura por sexo são eles”, argumenta.

A garota de programa conta que entrou na vida por três motivos: a tão sonhada carteira de motorista, um carro e uma residência. Nenhum deles realizado. O sonho atual é deixar a “casa” na qual mora e trabalha para casar. “Já estou prestes a isso”, revelou antes de enfatizar que o trabalho é a única forma de manter o padrão de vida. E desabafa: “Trabalho para me sustentar. Não há prazer”.

Sobre a regulamentação da prostituição no país, medida que garantiria às profissionais do sexo direitos trabalhistas - FGTS e aposentadoria, por exemplo - Natasha opina: “Seria interessante. Mas isso não vai acontecer tão cedo. Hoje, as pessoas acham um absurdo ouvir uma mulher dizer que trabalha numa boate. Imagina como seria se isso tivesse na carteira de trabalho. Você acha que ela conseguiria um trabalho em outro lugar? Nunca”.

"As profissionais do sexo sempre foram estigmatizadas pela sociedade", diz garota de programa que omitiu o nome e o rosto.

"As profissionais do sexo sempre foram estigmatizadas pela sociedade", diz garota de programa que omitiu o nome e o rosto.

DADOS

Segundo a coordenadora do Programa DST/AIDS, ligado à secretaria da Saúde de Joaçaba, Sulany Velter, há cerca de 20 mulheres que trabalham em boates e casas de prostituição na cidade. “Apesar da existência de um cadastro é difícil dizer exatamente quantas são. Um dos problemas é a rotatividade”. O registro exclui as mulheres que trabalham nas rodovias e ruas porque, nas palavras de Velter, “é um grupo muito difícil de abordar”.

O Programa DST/AIDS desenvolve um trabalho integral com as profissionais do sexo, uma vez que o grupo é mais vulnerável a adquirir doenças sexualmente transmissíveis. O trabalho inclui visitas mensais, distribuição de preservativos e agendamento de exames. A finalidade da ação, de acordo com a coordenadora, é reduzir a incidência de contaminação entre profissionais e clientes.

* Os nomes foram alterados a pedido das entrevistadas. Os codinomes utilizados foram escolhidos por elas.

19

de
março

Malabares no sinal: A arte das ruas no centro de Joaçaba

“Senhoras e senhores”, anuncia o semáforo no melhor estilo circense. O sinal vermelho abre passagem para a apresentação do palhaço malabarista. Na rua, carros, ônibus e motos estão dispostos ao longo de 30 metros. A calçada, ladeada de vitrines e fachadas de prédios, também está repleta de espectadores. A Rua Francisco Lindner, no centro de Joaçaba, é o palco momentâneo do artista Narigüetas, numa manhã de sol, por volta do meio-dia. Ele pula, executa movimentos rápidos e ritmados no malabares, faz graça e arranca sorrisos da platéia ambulante. A apresentação dura pouco, ao sinal verde a público se dissipa. Ninguém que passou por ali imagina quem se esconde atrás do grande nariz vermelho e das roupas coloridas. Tampouco conhecem seu nome, sua casa, sua história.

Sentado na soleira de granito da porta de uma loja, à esquina, Pablo, o malabarista Narigüetas, aguarda, alheio a correria, o sinal fechar, a platéia parar, para começar mais um rápido espetáculo. Divertir as pessoas é o trabalho dele há oito anos: “Eu comecei a trabalhar, em Buenos Aires, com uns anarquistas, numa casa abandonada. Depois fiz aulas de circo, de teatro Clown, e a partir de então, comecei a representar em teatros, festas, aniversários. Mas eu gosto mesmo da sinaleira, do semáforo” confessa.

Argentino de Puerto Iguaçu, Pablo vem ao Brasil constantemente, sempre acompanhado da sua mochila, onde leva seu material de trabalho e roupas. Nômade, ele fica uma semana em cada cidade, a depender da recepção, talvez um pouco mais. “Tem cidades que as pessoas não conhecem muito a arte da rua, nesses lugares as pessoas olham e gostam muito. Mas tem cidades que recebem há tempos os artistas de rua, que algumas vezes não são boa gente, muitos usam drogas, trabalham com roupas sujas, e as pessoas acham que são uns ‘balgos’, assim, um cara sujo. Tem cidades que respeitam, outras não”, explicou. Em Joaçaba, o artista foi recebido na casa do amigo uruguaio, Daniel.

Assim, de uma cidade para outra, ele conheceu muitos lugares pelo mundo, como a Espanha e a França, países que valorizam o trabalho que ele faz. O Brasil é outro destino favorito do malabarista. “Eu acho que os ‘brasileños’ respeitam mais do que os argentinos, por exemplo. A gente é valorizado aqui, porque não tem muitos artistas. As pessoas ficam mais admiradas. Na Argentina, há uma cultura fascista que só respeita os artistas que trabalham no teatro”. Pablo conta ainda que com o dinheiro que ganha percorrendo os três Estados do sul, ele consegue o suficiente para comprar uma passagem para a Europa. “Quando passo o chapéu, as pessoas deixam cair nele alguma coisa que não lhes falta”, diz sobre a retribuição financeira do público.

Por que Narigüetas?

“Eu estava trabalhando num sinal e veio um ‘pequeniño’ e me perguntou: ‘Como é seu nome?’. Respondi que eu não tinha nome artístico. O pai da criança então perguntou: ‘Posso por um nome em você?’. Sí, sí, respondi. O homem perguntou ao filho qual seria o nome. ‘Narigón’, escolheu o menino. Eu falei que não havia gostado muito desse nome. Então o pai falou: ‘Que tal Piruetas?’. Eu tampouco gostei, mas fiz um negócio ali com os nomes e passei a chamar-me Narigüetas. Esse é o meu nome artístico.”

Pablo declara que gostaria de fazer outra coisa, no entanto, acostumado a viver livre, não quer ter um patrão lhe dando ordens. Apesar de viver abnegadamente, afirma que a vida de um artista de rua é fácil. “Ser livre é bom. Se quero trabalhar, trabalho. Se não quero, não vou. Eu acho legal”. O próximo destino de Narigüetas é uma incógnita para o próprio artista. A única probabilidade parece ser o retorno. “Hasta luego!”, despede-se, à sua maneira, do público que o vê apenas como um artista de rua. E isso lhe basta.

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