
Kallinca Porto idolatra Madonna, lê Bukowiski, beija – mesmo – garotas e é a popstar de párias e renegados
Entre uma tragada e outra de cerveja Glacial, dessa que se vende em boteco universitário e da qual os estudantes escolhem pelo preço (R$ 3, experimente! é ótima), Kallinca Porto é a fama personificada. Afinal, no ambiente de penumbra, poluído por fumaça de cigarro e rock n’roll decadente, a universitária de 19 anos concede entrevista a um jovem jornalista interessado na sua vida. O tema clichê – Quem não conhece Kallinca Porto nesta parte ao sul do mundo? – nada tem a ver com a história relatada. O lugar-comum está distante de ser habitado por essa garota deslumbrante de um jeito absolutamente excessivo.
Quando Truman Capote escreveu a novela Breakfast at Tiffany’s, em 1958, pensou que sua amiga Marilyn Monroe seria a tradução perfeita da personagem Holly Golightly. A garota cabeça de vento, que ingenuamente flanava pela vida e possuía uma inocência ainda que voluptuosa - capaz de tornar a amoralidade antes de reprovável, charmosa – é também a descrição da nossa bonequinha luxo. Aliás, as peripécias de Kallinca poderiam render-lhe o título - pouco nobre - de celebridade por qualquer colunista nova-iorquino, a capa da Vogue, Life, Rolling Stones. Kallinca seria facilmente personagem dos filmes underground de Polanski, do mundo pop de Warhol ou Madonna, a quem cultua obstinadamente. Com 1,70 metros de altura, cabelos negros ondulados até o ombro, que contrastam com a pele branca aveludada e olhos por onde navegariam saveiros, Kallinca é ou não decalque da celebridade talhada por Capote?
Kallinca cresceu em uma vida confortável, na região quente e de ar abafado do centro-oeste do país. Durante a infância morou com a mãe Lucimar, os avós maternos e a tia em uma casa grande de quintal espaçoso, em meio à sombra de muitas árvores (ela odeia o calor). “Tinha vários pés de frutas, tinha uma mangueira, um pé de fruta do conde, um pé de limão, pé de acerola, de pitanga e de caju, maracujazeiro, tinha uma horta, tomate, alface, hortelão, fora as ervas do vô, arruda, cidreira… entrava muito sol dentro de casa. O cheiro era sempre de algo da cozinha: café, temperos. Tinha o cheiro da minha vó”, recorda. Aos 12 anos mudou-se com a família para o interior de Santa Catarina (o calor só seria problema poucos meses por ano), onde atualmente traça - nem tão ávida assim - sua carreira de fama e o estrelato (afirma que a faculdade de Publicidade, que cursa há dois anos como hobbie, pode ajudá-la).
A educação de Kallinca é algo cinematográfico. Sua mãe, corretora de seguros e aficionada por música, a educou com discos de Bob Dylan, Duran Duran e, claro, Madonna. Não por acaso ela idolatra a diva do pop. As referências culturais, que de certa forma moldaram a sua personalidade e injetaram ainda mais conteúdo na sua veia artística, têm ainda Supertramp, A-HA e na literatura Bukowiski, o escritor marginal e anarquista do qual o texto, além de escatológico e etílico, fala de pessoas comuns e que não tem futuro.
Da infância regada à música, livros e filmes de “adultos”, Kallinca lembra do dia em que, aos cinco anos, assistiu “Lua de Fel” (Roman Polanski, 1992), entre os mais amargos filmes sobre o amor, as obsessões e a sexualidade humana. “Estávamos no sofá, eu deitada no colo dela. Nas cenas de sexo, que são muitas no filme, ela tentava cobrir meus olhos com a mão”, diz revivendo o modo como sua mãe tentava sem êxito censurar sua visão. Na reprodução, o riso, a mão no rosto, o vazio entre os dedos que revelavam seus olhos, denunciavam a suavidade do flashback lacônico.
A televisão era uma companhia inseparável. Quando a mãe saia para trabalhar a deixava na frente do aparelho. Durante as oito horas que a genitora passava fora de casa (e avós ocupados com seus afazeres), as únicas companhias de carne e osso eram de sua tia (com esquizofrenia) e Pimpolho, seu coelhinho de estimação. Brincadeiras na rua, com amiguinhos até os 12 anos eram incomuns. Depois disso, só nos finais de semana. Talvez – e só talvez – por isso ela se considere uma jovem viciada em TV. Com a chegada da internet migrou também de vício. Ela não imagina como seria sua vida hoje sem TV e sem consultas diárias no Google.
Desde o tempo do colégio adventista ela se destaca. Não pelos óculos que usava ou pela tiara colorida que a avó insistia em colocar na sua cabeça, como se ali fosse o local ideal para fixar um outdoor anunciando: Olhem para a Kallinca, a menina malvada que ninguém gosta e, que segundo a professora vai para o inferno. “O adventista era particular. Tinha meninas que usavam saia, mas eu usava short… a primeira palavra que eu escrevi foi Jesus, antes do meu nome, acredita? Eles contavam historinhas das Bíblia (isso no pré), e qualquer ato de egoísmo ou malvadeza, a professora dizia que iríamos para o inferno. A professora chamou minha mãe uma vez e disse que eu era muito faladeira. Minha mãe disse que iria começar a me vigiar na escola, eu acreditei e ficava olhando pra todos os lugares para ver se a encontrava”, diverte-se sem nenhum saudosismo.
Dessa época em que invejava a coleguinha Ingrid – loira, quietinha, pé-pequeno, sem pelos e diabética que todos gostavam – e que ouvia relatos de pecados e penitências ela quer mesmo uma redenção. “Era horrível. Sou cheia de culpa até hoje. Quando faço sexo fico pensando: Meu Deus! Sou uma puta. ‘Dei’ pro cara na primeira vez”.
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Diante do panorama comportado e conservador da sociedade bairrista e de pós-adolescentes de vinte e poucos anos cheios de preconceitos, Kallinca – que agradece por ter Madonna como inspiração – é uma popstar para os párias e renegados sociais que a conhecem. “Eu acho um carma na minha vida ser fã de Madonna. Isso porque não se espera pouco de quem é fã de Madonna”, revela num timing quase teatral. Com a mesma expressão afirma que se descobriu narcisista. Antes de qualquer coisa, há apenas Kall e seu reflexo. “Vivo me olhando no espelho mexendo no cabelo”.
O que ela diz não parece nítido e claro, porém flui de forma avassaladora como pequenos goles de Tequila, limão e sal. A mistura pouco discreta é ainda mais explosiva quando desce pela linda garganta de Kallinca e cai no seu sangue. Imagine a rotina de um bar ser interrompida por uma mulher que não hesita em tirar a roupa em troca de um hit da sua diva? Imagine agora o doce pedido “Se tocar Madonna eu fico pelada” tornar-se jargão. Kallinca é Kallinca o tempo todo. Nua num bar ou vestida com uma de suas produções autênticas - a combinação de um corselet de renda branca e minissaia armada da mesma cor, sapatos de salto agulha altíssimo vermelhos, colares de cristais, lábios e unhas pintados de fogo é uma delas - para um ambiente mais “formal”.
Essa vida - música, moda, excessos, volúpia e o desejo de ser notada - é tudo o que ela sempre quis. Mas não é só isso. Entre a organização do quarto, do horário para comer, idas e corridas (também ao banheiro), faculdade, fumar, beber cerveja, dar entrevistas, beijar garotos e garotas, transar, e vomitar no travesseiro do seu “ficante”… entre as “coisas cotidianas” da sua existência, ela tem a capacidade de produzir a requintada inquietação em relação à condição humana, tão “over”.
Se tudo seguir exatamente do jeito que não foi planejado, Kall não terá muito tempo para relaxar no seu futuro próximo de fama e ostentação - uma ambição que soa muito melhor se não for declarada em voz alta. Mas, mais importante que isso, ela quer inspirar sua legião de fãs bradando por aí. “É difícil demais e, quando você é inteligente, é muito constrangedor. Meus complexos não são tão inferiores assim: todo mundo acha que ser estrela é ter um ego do mesmo tamanho de um bonde são coisas que andam de mãos dadas; na verdade, o essencial é não ter ego nenhum. Nada contra ser rica e famosa. Isso está nos meus planos, e qualquer dia desses vai dar certo; mas quando isso acontecer, quero estar com o meu ego aqui comigo. Ainda quero ser eu mesma quando acordar numa bela manhã para tomar café-da-manhã na Tiffany’s”, gritaria Kallinca se fosse Holly Golightly, a bonequinha de luxo de Capote. Mas como não é, ela se contenta com a definição que o avô lhe atribuí com toda sinceridade: “Kallinca é uma santinha”*.
*No italiano, o nome de Santa Virgem Maria é vertido, para representação artística, em Madonna.